Hoje votei numa “casa do povo”, mais precisamente na Casa do Povo de Lavre no Alentejo. O gesto foi simples, democrático, normal. Mas o local não é neutro. Pelo contrário, carrega uma história que muitos preferem ignorar e outros fingem não conhecer.
Convém dizê-lo sem rodeios: as “Casas do Povo” não nasceram da Revolução de Abril, nem da luta popular, nem da iniciativa das esquerdas. Foram criadas por Salazar, em pleno Estado Novo, no quadro do corporativismo autoritário consagrado em 1933. Esta é a verdade histórica, por mais incómoda que seja para quem transformou a palavra “povo” numa espécie de propriedade ideológica.
As Casas do Povo surgem com um decreto de 1933, no mesmo momento em que o regime se organiza constitucionalmente. Destinavam-se sobretudo ao mundo rural e apresentavam-se como instituições de proteção social. Havia apoio na doença, pequenos subsídios, alguma assistência. Mas esse lado social servia um objetivo maior e bem definido: controlar, enquadrar e despolitizar as populações rurais.
O Estado Novo não tolerava sindicatos livres nem associativismo autónomo. As Casas do Povo eram a alternativa oficial, vigiada e disciplinada. As direções não resultavam de livre escolha e diga-se de passagem, hoje também pouco resultam… A atividade era tutelada. O conflito social era substituído por uma encenação de harmonia. O povo era organizado para não se organizar por si próprio.
A própria palavra “povo” era central nesta engenharia política. No discurso salazarista, o povo era uno, ordeiro e obediente. Não havia classes, não havia luta social, não havia oposição legítima. Havia um povo enquadrado, protegido até certo ponto, mas sempre subordinado. As Casas do Povo eram a tradução local dessa visão.
Chegado o 25 de Abril, caiu o regime, mas não desapareceram todas as suas estruturas. Em muitas terras, sobretudo no Alentejo, as Casas do Povo mantiveram edifícios, património e implantação social. Foi então que os partidos de esquerda, com destaque para o PCP, agarraram essas estruturas e, sobretudo, a marca simbólica “povo”, ressignificando-as politicamente.
Mudou o discurso, mudou a cor ideológica, mas as paredes eram as mesmas. As instituições eram as mesmas. A genealogia era a mesma. Há aqui uma ironia histórica que raramente é assumida: muitos dos espaços usados depois de 1974 para politizar o povo tinham sido criados originalmente para o despolitizar.
Isto não invalida o papel social que várias “Casas do Povo” desempenharam em democracia. Mas uma coisa é reconhecer a utilidade posterior, outra é falsificar a origem. A intenção original conta. E a intenção foi clara: controlo social e político do mundo rural.
Apresentar hoje as Casas do Povo como uma criação natural da esquerda ou como fruto da organização popular pós-revolucionária não é História. É memória seletiva. É propaganda.
A História, porém, não se escreve por conveniência ideológica. Escreve-se com factos. E os factos dizem-nos algo simples e desconfortável: as Casas do Povo nasceram no Estado Novo, por iniciativa de Salazar, e foram depois apropriadas por quem sempre disse combatê-lo.
Negar isto pode dar jeito politicamente. Mas não torna a coisa menos verdadeira.
Paulo Freitas do Amaral