Entrevista exclusiva com Os Tubarões marca primeira noite do Kriol Jazz com casa cheia em Águeda

A primeira noite da segunda edição do Kriol Jazz Festival em Portugal ficou marcada por uma forte adesão do público, com o auditório do Centro de Artes de Águeda completamente esgotado para receber a histórica banda cabo-verdiana Os Tubarões, num arranque que confirmou o alcance e a relevância cultural do evento.

Integrado numa programação conjunta com o Kontornu – Festival Internacional de Dança & Artes Performativas, que se realiza pela primeira vez em Águeda, o festival trouxe à cidade uma proposta artística que cruza música, dança e criação contemporânea, com especial enfoque na identidade cabo-verdiana e na projeção internacional das suas expressões culturais.

Antes do concerto, a TVC esteve à conversa com os músicos da banda, numa entrevista exclusiva onde ficou evidente o simbolismo desta atuação. Com um percurso iniciado em 1969, Os Tubarões assumem-se como um dos grupos mais marcantes da música de Cabo Verde, mantendo-se ativos ao fim de mais de cinco décadas.

“É uma luta de mais de 50 anos. Uns saem, outros entram, mas o grupo continua sempre com esforço”, afirmou Zeca Couto, destacando a resiliência de um projeto que atravessa gerações. Apesar de já terem atuado em várias zonas do país, esta foi a primeira vez em Águeda, onde garantem ter sido recebidos com grande hospitalidade.

A entrevista revelou também os pilares fundamentais da cultura cabo-verdiana que a banda procura levar a cada palco: a música e a língua. “A língua é a nossa base, é como expressamos os sentimentos. E a música tem tido um papel essencial para dar a conhecer Cabo Verde ao mundo”, explicou Israel Silva, sublinhando o contributo de artistas como Cesária Évora para essa projeção internacional.

Outro dos aspetos marcantes da história do grupo prende-se com o facto de nunca ter sido, na sua essência, uma banda profissional. Ao longo dos anos, os seus elementos conciliavam a música com outras profissões, num contexto em que Cabo Verde não oferecia condições para viver exclusivamente da atividade artística. Ainda assim, o grupo sempre manteve regras exigentes, recusando integrar músicos que não estudassem ou trabalhassem.

Num tom mais emotivo, os músicos recordaram momentos marcantes, desde a saída de elementos para prosseguir estudos até à perda de companheiros que já faleceram. “Tocamos sempre para eles”, referiu Zeca Couto, numa referência ao legado coletivo que continua a acompanhar a banda em palco.

A atuação de Os Tubarões confirmou-se como um dos pontos altos do festival, numa noite de casa cheia que abriu da melhor forma uma programação que continua ao longo do fim de semana no Centro de Artes de Águeda, afirmando o concelho como um espaço de encontro entre culturas e linguagens artísticas.

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