O 1.º Seminário “Crescer com Direitos”, dedicado ao tema “Cuidar em família – O Acolhimento Familiar como medida de promoção e proteção”, reuniu no passado dia 7 de maio, na Casa da Cultura na Sertã, técnicos, entidades e comunidade para desmistificar mitos, esclarecer dúvidas e sensibilizar o público para a importância do acolhimento familiar enquanto resposta fundamental na proteção de crianças e jovens em situação de risco.
Após um momento musical pelo polo Artístico da Sertã do Conservatório de Música de Coimbra, Ana Margarida Alves, vereadora da Câmara Municipal da Sertã com o pelouro da Ação Social, destacou na sessão de abertura, a importância da presença do público mais jovem no seminário, sublinhando o papel fundamental que as novas gerações poderão assumir no futuro do acolhimento familiar.


A vereadora referiu ainda que iniciativas como esta são essenciais para sensibilizar, informar e despertar consciências, afirmando que “hoje planta-se uma semente” relativamente à reflexão e promoção do acolhimento familiar. Na sua intervenção, Ana Margarida Alves salientou ainda o papel insubstituível da família enquanto elemento cuidador, protetor e promotor do desenvolvimento saudável das crianças e jovens.
Seguiu-se Márcia Godinho, psicóloga da VincuLar – Acolhimento Familiar, que, na sua apresentação “Acolhimento Familiar: Laços que Transformam Vidas”, lembrou o direito que todas as crianças têm a crescer numa família, sublinhando os impactos negativos da institucionalização prolongada no desenvolvimento infantil. Segundo Márcia Godinho, “cada três meses que uma criança passa numa instituição correspondem a um mês de atraso no seu desenvolvimento”, reforçando que a vinculação afetiva construída numa família de acolhimento é mais segura e promotora de um desenvolvimento saudável.
A psicóloga recordou ainda que, apesar de temporário, o acolhimento familiar e os vínculos seguros estabelecidos com a família de acolhimento, permitem à criança criar bases emocionais sólidas para futuras relações. “Investir na promoção de vínculos seguros é investir no futuro emocional e social das crianças, criando adultos mais equilibrados e resilientes”, afirmou.
No que toca a números, e de acordo com os dados do Relatório CASA 2024, à data de publicação do mesmo encontravam-se 6.349 crianças e jovens no Sistema de Promoção e Proteção em Portugal, sendo que dessas, apenas 361 estavam integrados em famílias de acolhimento. No distrito de Castelo Branco, a realidade era ainda mais expressiva: das 145 crianças e jovens acolhidos, 144 encontravam-se em acolhimento residencial e apenas uma em acolhimento familiar.
Apesar deste cenário, a VincuLar tem vindo a reforçar o seu trabalho no distrito, contando atualmente com 116 manifestações de interesse, 15 famílias em bolsa e 15 crianças em acolhimento familiar.
Um dos momentos centrais do encontro foi a mesa redonda subordinada ao tema “Conversas sobre o Acolhimento Familiar: Articulação, Desafios, Práticas e Perspetivas Futuras”, moderada por Miguel Leite, psicólogo clínico e mediador de conflitos no Julgado de Paz da Sertã. O painel contou com a participação de Ana Vieira, psicóloga e técnica do Núcleo de
Infância e Juventude do Instituto da Segurança Social de Castelo Branco; Maria João Ribeiro, presidente da CPCJ da Sertã; Sara Santos, coordenadora da VincuLar Acolhimento Familiar; e ainda com o testemunho de Margarida e Hélder, presentemente uma família de acolhimento.


Questionada sobre a motivação para acolher, Margarida respondeu de forma simples e emotiva: “Porque não? Temos espaço, amor, colo e a possibilidade de melhorar a vida de uma criança e fazer a diferença.” A família de acolhimento partilhou também alguns dos principais desafios sentidos, nomeadamente a burocracia e o desconhecimento dos direitos das famílias de acolhimento por parte de organismos públicos.
Relativamente à questão frequentemente colocada — “e quando a criança for embora?” — explicaram que encaram o acolhimento temporário com serenidade: “Os filhos, mesmo os biológicos, são do mundo. O importante é saber que cuidámos daquela criança e que lhe proporcionámos uma transição segura para a sua família definitiva.”
Sara Santos, salientou a importância das famílias de acolhimento no desenvolvimento das crianças, através de gestos simples como “dar colo, ensinar regras e proporcionar segurança”. A coordenadora da VincuLar destacou ainda os desafios associados aos tempos processuais, citando Armando Leandro, magistrado e autor de diversos livros e artigos publicados nos domínios da promoção e proteção dos direitos da criança: “o tempo das crianças não é igual ao tempo dos adultos.” Enquanto para um adulto um ano pode parecer pouco tempo, para uma criança pode representar uma parte significativa da sua vida, acrescentou defendendo que “as crianças não devem ser apenas um número de processo”.
Maria João Ribeiro, presidente da CPCJ da Sertã, reforçou a necessidade de mudança de paradigma nas medidas de proteção aplicadas em Portugal, referindo que apenas 0,5% das medidas aplicadas em 2024 corresponderam a acolhimento familiar. Salientou também a importância da sensibilização das famílias, trabalho que tem vindo a ser desenvolvido por entidades como a VincuLar e a Segurança Social.
Ana Vieira, psicóloga e técnica do Núcleo de Infância e Juventude do Instituto da Segurança Social de Castelo Branco, sublinhou que “cada família é única, tal como cada criança”, procurando tranquilizar potenciais famílias de acolhimento que receiam não ser “famílias perfeitas”. “Nenhuma família é perfeita. O mais importante é existir disponibilidade, paciência e vontade de cuidar”, afirmou.



Relativamente ao futuro, os intervenientes na mesa redonda, defenderam o reforço do acolhimento familiar, considerando a evidência científica que demonstra os benefícios desta resposta no desenvolvimento infantil.
O seminário incluiu ainda várias dinâmicas conduzidas por Miguel Leite, dirigidas sobretudo aos mais jovens, promovendo a reflexão sobre temas como o significado de acolher, o conceito de família e o papel da juventude na sociedade.
Enquanto resposta social promovida pelo Centro Assistencial, Cultural e Formativo do Fundão, a VincuLar – Acolhimento Familiar continua a desenvolver um trabalho de sensibilização e captação de famílias de acolhimento, procurando garantir que mais crianças possam crescer
num ambiente familiar seguro, estável e afetivo. Os interessados podem contactar a instituição através do número 964 919 554 ou do e-mail vincular.cacff@gmail.com.


Recorde-se que o 1º Seminário “Crescer com Direitos” foi promovido pela Câmara Municipal da Sertã, através do projeto CLDS 5G – Contratos Locais de Desenvolvimento Social – “Sertã Envolve” e em parceria com a CPCJ da Sertã. O CLDS 5G é um projeto do Municipio da Sertã, financiado pelo “Pessoas 2030”, pelo “Portugal 2030” e pela União Europeia.