O músico e compositor António Chainho morreu esta terça-feira, 27 de janeiro, na sua residência em Alfragide, no concelho da Amadora, no dia em que celebrava 88 anos. Figura maior da guitarra portuguesa, Chainho encerrou oficialmente a sua carreira artística em 2024, após seis décadas de atividade, deixando uma obra determinante para a afirmação e renovação do instrumento.
Nascido em 1938, em São Francisco da Serra, no Alentejo, António Chainho iniciou o contacto com a guitarra ainda criança, num contexto familiar e popular, observando os tocadores que frequentavam a taberna da família. Autodidata, construiu o seu percurso fora de academias e fórmulas, desenvolvendo uma linguagem própria que viria a marcar gerações de músicos.
A mudança para Lisboa abriu-lhe as portas do universo do fado, mas também o confrontou com os limites da tradição. Chainho tocou com grandes vozes e percorreu casas de fado, estúdios e palcos, afirmando-se, porém, sobretudo pela capacidade de levar a guitarra portuguesa para outros territórios musicais. Ao longo da carreira, dialogou com o jazz, a música popular brasileira e a música erudita, sempre com profundo respeito pela matriz fadista, mas recusando o confinamento estilístico.
A sua discografia, embora não extensa, é marcada por obras de forte identidade artística. “Guitarradas” (1975) revelou um instrumentista atento à tradição e simultaneamente aberto à reinvenção. Em “A Guitarra e Outras Mulheres” (1998) aprofundou uma abordagem mais intimista e poética, enquanto “LisGoa” (2010) evidenciou a sua dimensão de viajante cultural, cruzando geografias e influências. O último álbum, “O Abraço da Guitarra”, editado em 2024, assumiu-se como um trabalho de memória e gratidão, homenageando os mestres que conheceu através da rádio.
Reconhecido pela crítica nacional e internacional como um dos grandes nomes da guitarra portuguesa, António Chainho destacou-se não pelo virtuosismo exibicionista, mas por um toque inconfundível, onde conviviam delicadeza e tensão, melancolia e risco. Em palco, era conhecido pela concentração absoluta, num diálogo quase exclusivo com o instrumento.
Paralelamente à carreira artística, deixou uma marca profunda como pedagogo. Criou projetos de ensino dedicados à guitarra portuguesa, com especial incidência no Alentejo, defendendo a transmissão direta do saber e a formação de músicos com identidade própria. Recusava a ideia de formar discípulos à sua imagem, acreditando antes na liberdade criativa das novas gerações.
Apesar da notoriedade, manteve sempre uma vida pessoal discreta, fortemente ligada à família e à terra natal. Nos últimos anos, após o fim da carreira, dedicou-se sobretudo ao ensino e ao convívio familiar.
António Chainho deixa um legado que ultrapassa a discografia e os palcos, permanecendo na forma como hoje se toca e se pensa a guitarra portuguesa: como um instrumento vivo, aberto, inquieto e profundamente ligado à identidade cultural portuguesa.