Maria Lúcia Amaral apresentou esta terça-feira a demissão do cargo de ministra da Administração Interna, pondo termo a um mandato de apenas oito meses marcado por sucessivas polémicas e por críticas crescentes à sua capacidade de liderança em contextos de crise. A gota de água foi a gestão política e comunicacional da resposta à depressão Kristin, que atingiu Portugal continental no final de janeiro e expôs fragilidades já apontadas desde o verão.
A passagem da depressão Kristin, a 28 de janeiro, desencadeou uma vaga de contestação pública à atuação do Ministério da Administração Interna. Apesar de a ministra ter estado nesse dia na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, ao lado do primeiro-ministro e do Presidente da República, não prestou declarações nem se deslocou de imediato às zonas mais afetadas. Nos dois dias seguintes, manteve-se ausente do espaço público, situação que alimentou críticas de falta de presença política e de liderança no terreno.
Quando confrontada com essa ausência, Maria Lúcia Amaral defendeu-se afirmando que grande parte da gestão de uma crise é feita “em contexto de invisibilidade”, através de trabalho interno de informação, planeamento e coordenação. A explicação não convenceu autarcas, forças de proteção civil nem a oposição, sobretudo quando se soube que a Comissão Nacional de Proteção Civil só foi convocada cinco dias após o início da crise. Foi apenas nessa reunião que o Governo decidiu ativar o Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil, instrumento que permite uma coordenação reforçada a nível nacional.
Uma visita posterior a um dos concelhos afetados acabou por agravar a polémica, quando a ministra admitiu não saber identificar o que tinha falhado na resposta do Estado à situação, declaração interpretada como sinal de desorientação política.
O desgaste, no entanto, vinha de trás. Durante os incêndios do verão, em julho e agosto, Maria Lúcia Amaral já tinha sido alvo de críticas pela alegada ausência no terreno e por dificuldades na comunicação com o país. Numa conferência de imprensa na sede da proteção civil, recusou responder às perguntas dos jornalistas e abandonou a sala, episódio que marcou negativamente a perceção pública do seu desempenho. Na altura, afastou qualquer hipótese de demissão, invocando o juramento de lealdade feito aquando da tomada de posse.
Ao longo do mandato, outras situações contribuíram para o enfraquecimento político da ministra. Em dezembro, no parlamento, atribuiu as longas filas no Aeroporto de Lisboa à avaria de um servidor informático do ministério, uma explicação que se tornou símbolo das dificuldades na gestão da pasta. Paralelamente, ficaram por concretizar reformas consideradas estruturais, como a anunciada reforma da proteção civil e as alterações ao sistema SIRESP, ambas prometidas para o final de 2025.
A relação com as forças de segurança também se deteriorou. Sindicatos da PSP e associações da GNR acusaram a ministra de incumprir o acordo assinado em 2024, levando mesmo o maior sindicato policial a abandonar as negociações com o ministério.
Com um percurso institucional sólido — foi Provedora de Justiça durante oito anos e juíza do Tribunal Constitucional, onde chegou a vice-presidente — Maria Lúcia Amaral acaba por sair do Governo num dos momentos mais difíceis do país em termos de proteção civil. Desde o final de janeiro, as depressões Kristin, Leonardo e Marta provocaram 15 mortes, centenas de feridos e desalojados, destruição de habitações e empresas, cortes de estradas, energia, água e comunicações, afetando sobretudo as regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.
O contexto de calamidade, prolongado pelo Governo até ao dia 15 em dezenas de concelhos e acompanhado por um pacote de apoios de vários milhares de milhões de euros, acabou por tornar politicamente insustentável a permanência da ministra no cargo, encerrando um dos mandatos mais conturbados da atual legislatura.