Há uma narrativa cómoda que se instalou nos últimos anos: a de que a rádio é resiliente por natureza. Que sempre resistiu. Que sempre encontrará forma de continuar. Que é romântica, quase nostálgica, mas secundária.
Essa narrativa é perigosa. Porque transforma resistência em desculpa para abandono.
A rádio não sobrevive por milagre. Sobrevive por sacrifício. Sobrevive porque há profissionais que acumulam funções, que adiam investimentos pessoais, que trabalham com equipamentos envelhecidos, que enfrentam encargos fixos incompressíveis, que respondem a emergências sem saber se no mês seguinte conseguirão equilibrar contas. Sobrevive porque há quem acredite que desligar o emissor não é apenas uma decisão técnica, é uma derrota coletiva.
Fala-se muito de coesão territorial. Mas não existe coesão onde não existe comunicação.
Fala-se muito de combate à desertificação do interior. Mas não se combate o isolamento cortando a voz às comunidades.
Fala-se muito de democracia participativa. Mas não há participação onde não há microfone aberto.
A rádio local é a forma mais direta de democracia mediada. Não depende de algoritmos, não depende de plataformas estrangeiras, não depende de subscrições. Depende de proximidade. Depende de confiança. Depende de continuidade.
Quando há incêndios, é a rádio que transmite as estradas cortadas em tempo real.
Quando há cheias, é a rádio que alerta freguesia a freguesia.
Quando há eleições, é a rádio que dá voz aos candidatos locais que nunca teriam espaço nos grandes canais.
Quando há luto coletivo, é a rádio que une uma comunidade em silêncio partilhado.
E, no entanto, estruturalmente, o setor continua tratado como periférico.
Não existe um plano robusto de modernização tecnológica para rádios locais.
Não existe um mecanismo automático e célere de apoio em caso de destruição de infraestruturas.
Não existe um enquadramento financeiro ajustado à realidade de quem presta serviço público sem estatuto público.
Exige-se cumprimento rigoroso de obrigações legais, técnicas e administrativas (e bem). Mas não se garante estabilidade mínima para que essas obrigações possam ser sustentadas com dignidade.
O discurso oficial valoriza a “transição digital”. Mas como se faz transição quando mal se garante a manutenção da emissão analógica? Como se fala de futuro quando o presente está permanentemente em risco financeiro? Como se exige inovação a estruturas que lutam pela sobrevivência básica?
O país habituou-se à presença constante da rádio. E é precisamente essa constância que a tornou invisível para quem decide.
A rádio não faz greves mediáticas.
A rádio não encerra redações de forma abrupta.
A rádio não gera escândalos financeiros milionários.
A rádio trabalha. Todos os dias. Em silêncio.
E talvez seja esse silêncio que a esteja a condenar.
Há uma diferença profunda entre mercado e serviço. A rádio local vive numa zona híbrida: é privada na estrutura, mas pública na função. Informa, protege, mobiliza, integra. E fá-lo com recursos limitados e exigências crescentes.
Ignorar isto não é apenas uma falha política. É uma falha estratégica.
Num contexto de instabilidade climática crescente, de fenómenos extremos, de desinformação digital massiva e de dependência tecnológica externa, a rádio deveria ser considerada infraestrutura crítica de comunicação territorial. Não por romantismo. Por racionalidade.
Porque quando as redes móveis falham, a FM continua.
Porque quando as plataformas caem, a emissão permanece.
Porque quando a eletricidade oscila, há sistemas de redundância preparados.
Porque quando o caos aumenta, a simplicidade técnica torna-se uma vantagem.
Mas nada disto é eterno. Infraestruturas envelhecem. Equipamentos degradam-se. Profissionais esgotam-se. Projetos fecham.
E quando uma rádio se cala, não é apenas um negócio que termina. É uma comunidade que perde um ponto de encontro. É um território que fica menos visível. É um espaço público que encolhe.
A pergunta que deve inquietar-nos é simples:
Que país queremos construir? Um país onde tudo é centralizado e filtrado por grandes polos urbanos? Ou um país onde cada território tem voz própria, capacidade de informar-se e de se ouvir?
A rádio é a última trincheira da proximidade real.
Não a proximidade digital simulada.
Mas a proximidade concreta, identificável, responsável.
Se a deixarmos cair por omissão, não será por falta de avisos. Será por falta de coragem política para reconhecer que nem tudo o que é essencial é ruidoso.
E quando finalmente percebermos o vazio que ficou, pode já não haver frequência para sintonizar.